domingo, 10 de março de 2019

Artigo | A MULHER E O ESPIRITISMO


por Dora Incontri 

Todas as tradições espirituais, em minha leitura de estudiosa de longa data de muitas delas, tocam em verdades atemporais, indicam caminhos válidos para a humanidade, quando falam de compaixão, solidariedade, justiça e outros valores, que gostaríamos de ver realizados nesse mundo. Mas também todas as tradições espirituais são tecidas por seres humanos, em seus contextos históricos, embora até possamos considerar que foram inspiradas por Deus, anjos, ancestrais, espíritos… E por conta disso, todas elas estão sujeitas a uma leitura crítica, contextualizada. 

Assim, podemos aceitar e nos beneficiar do que é transcendente, válido para sempre para todos os seres humanos e podemos rejeitar o que já não se encaixa em nossos tempos e que muitas vezes ferem aqueles princípios universais.

Se formos analisar a Bíblia ou o Alcorão, nessa perspectiva, podemos nos libertar desse fundamentalismo, que nos finca no passado e colocam entraves aos necessários avanços sociais. Mas também podemos aproveitar as belezas de muitos ensinos, que edificam e consolam.

No espiritismo, temos a particularidade que Kardec não considerava suas obras como fontes sagradas e inquestionáveis. Ele as propunha como o resultado de uma pesquisa e de um diálogo igualitário com os espíritos, com quem se comunicava. E avisou explicitamente que o espiritismo poderia ser ajustado e modificado segundo a ciência ou as ideias que viessem avançar no tempo. 

Isso posto, examino no dia de hoje – dia internacional da mulher – como se situa a questão do feminino e do feminismo no espiritismo de Kardec. 

Na apreensão da filosofia espírita, em seus princípios fundamentais, há uma ideia clara, que salva o espiritismo de qualquer retrocesso de desigualdade: somos espíritos – e é no espírito que se radica o ser, a inteligência, a memória, a identidade, o sentimento, sendo o corpo apenas uma veste temporária – e como espíritos podemos reencarnar como homens, como mulheres, como brancos, negros, amarelos, e em qualquer classe social e em qualquer nação. Ou seja, somos essencialmente iguais. 

Mas o que diz especificamente o espiritismo a respeito da condição feminina no mundo? 

Quando Kardec começou a pesquisa dos fenômenos mediúnicos, em meados do século XIX, justamente se iniciava o movimento de emancipação da mulher e essa questão é discutida por ele. Primeiro, como Rivail, ainda entre as décadas de 1830 e 1840, ele se casou com Amélie Boudet, uma mulher mais velha do que ele nove anos, o que era atípico, e uma mulher que era intelectualizada, havia escrito um livro – que é por muitos mencionado, mas até agora nenhum pesquisador localizou – e participou como parceira de seus projetos de educação. 

Ainda nesse período, os dois militam pela educação da mulher. Depois, durante sua escrita das obras espíritas, a ideia da emancipação feminina aparece com frequência: na Revista Espírita, que ele dirigiu por 12 anos, ele defende o voto feminino e a possibilidade das mulheres se formarem em Medicina, por exemplo. 

No Livro dos Espíritos, está escrito que “a emancipação da mulher segue o processo da civilização, sua escravização marcha com a barbárie. Os sexos, aliás, só existem na organização física, pois os Espíritos podem tomar um e outro, não havendo diferenças entre eles a esse respeito. Por conseguinte, devem gozar dos mesmos direitos.” Mas nesse mesmo trecho bastante avançado para a época (questão 822a) há o reflexo ainda do contexto do século, onde se fala de “diferentes funções” e que “a mulher deve se ocupar do interior e o homem do exterior.” 

Por outro lado, há pesquisadores, como Ann Braud, com sua obra ainda sem tradução em português Radical Spirits (Espíritos radicais), que consideram todo o movimento espírita do século XIX como uma forma de emancipação feminina, já que as mulheres que não tinham voz na sociedade, passavam a tê-la através da mediunidade. E os médiuns que trabalharam com Kardec eram predominantemente mulheres. 

Já no Brasil, país onde o espiritismo criou raízes e disseminou-se, temos no movimento institucionalizado o predomínio de cargos ocupados por homens, de preferência idosos e conservadores. Houve, porém, à margem (como de costume) mulheres que se destacaram por sua participação nos movimentos sociais e por suas ideias libertárias. 



Cito duas aqui: Anália Franco (1853-1919) e Maria Lacerda de Moura (1887-1945). A primeira profissionalizou mulheres, acolheu mães solteiras (que eram párias sociais no virar do século XIX para XX) e trabalhou pela educação igualitária entre os gêneros. Maria Lacerda foi uma anarquista que militou por ideias pacifistas, contra o fascismo, colocando em prática ideias libertárias na educação das crianças. Ambas eram jornalistas, escritoras, educadoras. 

Então, nesse dia da mulher, é bom lembrarmos que em todas as tradições espirituais, somos de alguma forma escamoteadas, silenciadas – às vezes com discursos que pretendem justificar uma suposta inferioridade ou um campo limitado de nossa ação no mundo – mas sempre existiram e existem aquelas mulheres que resistem, se destacam, se lançam à luta e deixam suas marcas. 

Lutemos todos e todas para que isso não seja mais uma exceção no campo da espiritualidade e em todos os outros campos de ação humana.